sábado, 15 de agosto de 2009

Lembranças

Não adianta, por mais que eu tente, por mais que me esforce isso nunca será superado. Sei que já passou muito tempo, já passaram anos e minha cabeça continua lá, e isso continua me atormentando todos os dias, em todos os momentos. Minha vida não segue, não toma um rumo, parece que todas as idéias que tenho se travam com as lembranças. O que mais quero e voltar a sorrir, pular de alegria, ver meu coração leve como nunca foi, aquele sorriso surgindo nos momentos mais inoportunos, a felicidade transbordando, não podendo ser contida, não querendo ser contida.
As imagens que vejo quando me deito me aterrorizam, parece que tudo acontece novamente, os cheiros, os toques, minha incompreensão, minha ingenuidade, é muito difícil fechar os olhos, até uma leve piscada ocasional dada durante o dia me traz todo o horror que passei naquelas noites. Tenho medo de fechar os olhos, medo de sonhar, medo de não acordar. A cada manhã que me levanto experimento uma estranha mistura de sentimentos, o alívio (mais uma vez) de tudo não ter passado de mais um pesadelo, a angústia da lembrança, aquilo realmente algum dia aconteceu comigo, o cansaço por lembrar que terei mais um longo dia pela frente, mais um dia como tantos outros em que meu passado real me confrontará a cada minuto. Levando, sempre tenho força para levantar, na verdade, talvez o medo de adormecer novamente sirva de combustível para me fazer levantar.
Café da manhã, almoço, jantar, banho, faculdade, trabalho, tudo é tão automático, nem ao menos penso no que estou fazendo, apenas sinto o tédio que me domina o dia todo todos os dias. Sei que tenho que levar minha vida em frente, mesmo com um passado que tanto me atormenta tenho que levantar a cada dia, viver a cada dia. Não apenas é difícil, a cada dia é mais difícil que o anterior, encontrar motivos para continuar em frente, cada dia há menos motivos. Disseram-me que com o tempo tudo se tornaria mais fácil, todos me disseram isso, médicos, parentes, amigos. Fácil, fácil foi me dizer isso sem ter noção do que falavam, dizem por aí, e reitero, falar é fácil, falar sobre o que não se sabe, sobre o que não se tem idéia é ainda mais fácil. Sou eu que toda noite revivo o pesadelo que se deu há tantos anos, sou eu que sinto o terror, o nojo, o medo, a dor de novo e de novo, repetidas noites.
Sou obrigada a ver o sorriso cujo brilho me ofusca os olhos, as palavras calmas sem qualquer sintonia com o que ele fazia, palavras calmas que não condiziam com minha dor e humilhação, palavras que me faziam acreditar no que era dito. O problema era comigo, eu era a fresca, eu sentia dores inexistentes, via absurdos onde não existiam. E acreditei, tamanha era minha ingenuidade (e confiança, diga-se de passagem) que acreditei, tratei de morder o travesseiro e impedir que as lágrimas saíssem, escondi em meu silencio o que eu temia, afinal de contas, me dizia ele, aquilo não era nada de mais. Até hoje não entendo, não sei o que o motivou, que ele tem problemas? Me disseram, talvez eu realmente devesse ter pena. Pena? Acho que é o último sentimento que ele merece. Raiva seria mais apropriado. Raiva. Se passo perto meus músculos se contraem, o punho se fecha, minha garganta reclama, os olhos se enchem d’água, a vontade que tenho é de deformá-lo, cegá-lo, incapacitá-lo. Já que não há como mudar que pelo menos que eu seja a única vítima. Raiva. É o único nome que posso dar ao que sinto e ainda assim acho que não é forte o suficiente.
Hoje não foi diferente, acordei no susto, acordei com medo de meus pensamentos e já no automático me preparei para sair, afinal, a vida continua. Nada, nada foi diferente hoje, não demorei mais ou menos tempo, não conheci ninguém novo, não mudei de carteira ou recebi um aumento no trabalho. Se me pedissem para explicar não saberia dizer por que hoje, apenas sei que foi assim. Estava eu no ônibus com medo de fechar os olhos como sempre, quando não sei bem por que decidi olhar em volta. Tenho certeza que não havia nada de diferente, mas a diversidade de pessoas me chamou atenção. Algumas tristes, outras tantas alegres, umas com sono, outras excitadas, podíamos ver de tudo naquele ônibus, o problema é que eu nunca havia visto. Primeiro me assustei, tantas pessoas diferentes e eu sequer tinha percebido, olhei pelas janelas, acho que foi a primeira vez que percebi que um mundo se estendia além de meu caminho, um mundo que eu nunca tinha realmente prestado atenção. Suspirei e fechei os olhos. Minhas dores e lembranças internas, tão únicas e pessoais novamente me assaltaram, porém dessa vez inspirei fundo. Percebi que ela nunca iria embora sozinha, se eu não lutasse ela se manteria ali e me dominaria mais a cada dia me afastando de tudo que faz cada um de nós ser único e humano. Decidi que mesmo tendo que todo dia, toda hora que viver novamente meu pesadelo, eu seria forte e lutaria, lutaria pelo sorriso, o pulo de alegria, a leveza de meu coração, tudo o que eu queria que acontecesse e, naquele momento percebi, poderia acontecer se eu realmente lutasse pelo que queria.
Não era um dia especial, era apenas mais um em minha vida, porém foi naquele dia que eu despertei, naquele dia que eu decidi voltar à vida, lutar por minhas felicidade. Aquele pesadelo já havia me tomado o passado, não havia porque permitir que me devorasse o presente e o futuro, decidi agir, decidi mudar, a luta seria dura, mas eu não perderia sem nem ao menos tentar. O sorriso que abri foi minha primeira vitória, vitória contra aquele homem, contra o que ele tinha feito, contra meu passado e todas os dias que eu já havia perdido.

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